Pitaco da semana: Ciro Gomes no Roda Viva: uma alternativa da esquerda?

O pitaco da semana sobre Ciro Gomes estava programado para ir ao ar na semana em que Pedro Parente saiu da Petrobrás (numa sexta-feira) e alterou a nossa programação. As questões técnicas acabaram por comprometer sua publicação e o domingo do dia 03/06 acabou ficando sem Pitacos. Com intuíto de tapar esse buraco e, ao mesmo tempo, dar algum espaçamento para temas da semana, decidimos publicar este texto hoje, na quarta-feira.

Antes de entrarmos propriamente na fala do pré-candidato à presidência Ciro Gomes, gostaríamos de frisar que este foi o primeiro Roda Viva que este que vos escreve assistiu desde que o programa foi desautorizado pelo compositor Chico Buarque a utilizar a música de abertura. Naquele momento, percebemos que a insuspeita posição política do jornalista Augusto Nunes estava comprometendo a qualidade do programa – que perdeu muito com a saída de Mário Sérgio Conti (para não falarmos nos tempos de ouro, nos anos 80/90). O novo arranjo proposto pelo jornalista Ricardo Lessa, embora não altere a rigidez da estrutura de perguntas e respostas (que deixa a Roda mais morta que viva), se mostrou mais palatável a um debate minimamente civilizado. Poderíamos pensar que o programa com o pré-candidato do PSOL, Guilherme Boulos, foi fraco. Mas o jornalista também não pode ser responsabilizado pelo total despreparo dos convidados, devidamente “engolidos” pelo líder do MTST.

Isto posto, vamos ao texto. Acompanhamos os discursos e análises de Ciro Gomes há algum tempo e ficou evidente que seu diagnóstico para os problemas nacionais não se alterou: defesa irrestrita e com todas as palavras de um projeto nacional de desenvolvimento que concilie o trabalho com o investimento produtivo. A opção de Ciro em tirar do esquecimento as palavras “projeto”, “nacional” e “desenvolvimento” é corajosa e elogiável porque marca posição clara no debate sobre a globalização nas condições periféricas. Anacronismo ou mesmo “ilusão desenvolvimentista” também cabem, mas são mais custosas do ponto de vista de quem as aponta porque requer forte respaldo teórico e prático, uma condição rara hoje em dia. De qualquer forma, para quem acompanha os discursos do ministro a Roda Viva não trouxe nenhuma novidade.

Por essa razão, ainda restam várias questões sobre como o seu diagnóstico será implementado e aqui estamos menos preocupados com as exigências do “presidencialismo de coalização”. Deixemos essas questões “centrais” para os especialistas, domingueiros de plantão. O que buscamos questionar é em que medida o diagnóstico ataca o subdesenvolvimento e a dependência externa, que são os problemas estruturais da economia nacional e em que medida uma proposta de consolidação fiscal do Estado assegura o crescimento.

images-4

Sobre o primeiro ponto, é difícil encontrarmos resposta porque os programas, inclusive os desenvolvimentistas, dificilmente tocam nessas questões após a consolidação da posição dependente brasileira durante as décadas de 1980 e de 1990. Lembremos apenas que as pautas das Reformas de Base não voltaram com a redemocratização e que os governos progressistas petistas não mexerem em uma vírgula das propostas entreguistas e reformas empreendidas durante o governo FHC. Nesse sentido, o debate encontra-se congestinado por falsas questões e falsos problemas que, no máximo, estão no limiar das questões mais profundas. Por outro lado, lembremos que o setor progressista (Ciro, o petismo e os radicais) já indica revogar as medidas feitas pelo governo ilegítimo, o que em si já representa algum avanço em um processo de questionamento do processo de ajuste da economia brasileira, a que reiteradamente voltamos neste espaço. Se a agenda da Revolução Brasileira, esquecida após o golpe de 1964, voltará a ser pensada são outros quinhentos.

Já em relação à segunda questão nos parece claro que o combate ao marasmo da economia brasileira via consolidação fiscal e reformas institucionais encontra sérios limites na realidade periférica. A agenda proposta passa por tributação sobre os mais ricos, consolidação fiscal do Estado (o ministro se lembra de que executou o maior superávit primário da história), reforma da previdência etc. chegando a renegociação da dívida dos empresários e uma política mais ativa no mercado de câmbio não convence sobre a capacidade de retomar o crescimento. No fundo, a economia brasileira responde muito aos movimentos da economia internacional e por melhores que forem as condições internas o impulso fundamental ao crescimento não se encontra sobre o comando o Estado nacional. Evidente que políticas contracionistas e ajuste fiscal não ajudam e atrapalham, porque comprometem ainda mais as condições fiscais – basta ver os indicadores brasileiros de 2014 para cá – e derrubam as expectativas. O que importa é que não nos parece que as mudanças prometidas implicam necessariamente crescimento econômico e, portanto, um ensaio para o encaminhamento para as questões fundamentais. A agenda proposta, portanto, não é inadequada, mas falta maior esclarecimento sobre como concatenar pontos importantes para o planejamento econômico e o fortalecimento da economia nacional.

Se não há grandes novidades em seu discurso e diagnóstico, é interessante nos lembrarmos dos programas Roda Viva em que Ciro Gomes participava na posição de ministro da Fazenda (1994). Se o “Ciro desenvolvimentista” é conhecido ao menos de 2015 para cá, o “Ciro tucano” é uma figura extremamente interessante porque expressa a paulatina guinada à direita do espectro político brasileiro. É importante lembrarmos que o PSDB daquela época era fundamentalmente diferente do atual. Além de não ter ido ao poder, era um partido que contava com figuras como Mário Covas, um partido que propunha algo mais próximo ao que consta em seu nome, a social-democracia. Logo, o “Ciro tucano” dificilmente dialogaria com os atuais tucanos (como podemos, inclusive, ver). O resgate, porém, é necessário porque acreditamos que Ciro não mudou e se seu discurso atual encontra respaldo mais à esquerda, no PDT, é porque o espectro deslocou-se muito para a direita, hoje muito distante do programa social-democrata – atualmente está vazio dentro no ninho tucano, mas com resistências. Assim, uma sugestão para pensarmos “para onde iria” um governo comandado pelo paulista, ou seja, qual seria o seu projeto, é pensarmos suas propostas à luz do projeto “PSDB-raíz”, comprometido sim com o desenvolvimento nacional ainda que por vias diferentes do projeto petista.

791_materia

Se pensarmos o presidenciável em sua totalidade, muitas dúvidas em relação a seu governo caem por terra, tornando mais claras o projeto político subjacente. Ao final, reunimos os três programas em que o pré-candidato participa. Disparado o melhor candidato para um projeto de centro, a candidatura ainda não tem projeto (que estamos esperando) mas parte de um diagnóstico mais realista, complexo e crível que as opções à direita e à esquerda.

 

Programa de 28/05/2018

 

Programa de 25/09/1995

Programa de 24/10/1994

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s