A insuportável comparação entre Lula e Vargas

Não é novidade para os que acompanham os debates de conjuntura brasileira a comparação entre Lula e Getúlio Vargas. Recorrentemente aparecem as tentativas em editoriais, colunas e textos. Os tempos atuais também não ajudam: da clara sinalização ao desmonte da Era Vargas propagada pelo governo FHC à repetição de expressões como “mar de lama” e “República do Galeão [Curitiba]” tornam quase impossível não buscarmos relações entre o momento em que vivemos e a época de Vargas, principalmente o seu segundo governo (1951-1954). No entanto, nos causa estranheza que as comparações extrapolam a referência a um período histórico conturbado, chegando às aproximações em torno da forma de governar, da relação com o povo brasileiro e, em último caso, de características pessoais entre as figuras de Lula e Vargas (carisma, conciliação etc.).

A nosso ver, parte dos analistas, jornalistas e políticos que assim procedem pretendem esconder por de trás do processo histórico que culminou no fim da Era Vargas os limites do PT no governo, isto é, o expediente da comparação antes mistifica as escolhas políticas do governo petista que traz à tona as questões que se colocaram no passado e se colocam hoje – como a dependência e o subdesenvolvimento. Nesse sentido, além de um desrespeito intelectual para com a história do país e uma irresponsabilidade, esses analistas propagam uma insuportável comparação entre um estadista e um legítimo representante do povo brasileiro que chegou à presidência. No lugar, poderiam explorar as semelhanças entre os períodos, como a especialização da economia brasileira e a dificuldade de implantarmos uma estratégia de planejamento que defenda os interesses eminentemente nacionais. Em uma palavra, a comparação entre Lula e Vargas esconde os limites do PT no governo e secundariza os problemas nacionais.

As referências entre os dois períodos, a nosso juízo, dizem respeito a momentos de definição em torno da economia brasileira e sua conexão com o mercado mundial. Diferentemente dos domingueiros de plantão e dos analistas defensores de uma sociedade apaixonada pelo dinheiro, recordamos que o Brasil não está em Plutão, mas na Terra e por isso convive com outras economias, outros Estados. Durante nossa história, assistimos à luta pela construção da Nação e a destruição da Colônia, um movimento que se expressa na economia, na sociedade, na cultura, nos valores etc. Na medida que nossas classes dirigentes se interessam pela manutenção da ordem, o passado colonial custou a desaparecer, fundindo-se com os choques de modernidade que por aqui aportaram na passagem do século XIX para o XX. Ou seja, no Brasil, os processos de transformação, de mudança antes reorganizam formas pretéritas e novas de organização social, política, econômica e cultural que avançam no sentido de enterrar o passado e dar vazão ao “novo”. Esta chave de pensamento foi a que lastreou o pensamento de inúmeros intérpretes do Brasil, cuja semelhança era sua atividade política e sua atividade de reflexão. Em Celso Furtado, Florestan Fernandes, Nelson Sodré e Caio Prado Jr., projeto político e reflexão intelectual andavam juntos, inseparáveis, conferindo a suas análises concretude e, principalmente, totalidade. Ademais, o país vivia a expansão do capital monopolista a partir dos EUA e por isso passava por um momento de definições a cerca de sua relação com a economia internacional e do sentido de seu desenvolvimento interno. Este período é a manifestação da Revolução Brasileira, processo histórico de passagem da Colônia para a Nação.

Todos essas pontuações servem para destacarmos as substanciais diferenças entre os períodos históricos pré-64 e pós-64 e a consequentente distância que separa líderes como Vargas e Lula. O golpe de 64 pôs termo na discussão sobre a Revolução Brasileira. Intelectuais saíram do país, outros foram presos. Simpatizantes, mortos. A força do golpe também aparece na redemocratização, visto que não só as Diretas foram derrotadas mas as pautas da esquerda desse período não foram retomadas pela ala progressista. Em suma, o golpe de 64 demarca um corte no processo de formação do Brasil que quaisquer comparações entre o período atual e o que antecede o golpe tornam imprescindíveis muitas mediações e muito cuidado para não cairmos em generalizações e falsos problemas. Nesse sentido, o problema da dependência externa e do subdesenvolvimento, em pauta nos anos pré-golpe civil-militar, permanece como problema central da economia brasileira mas está fora da agenda atual de debates.

Se os problemas sobre os quais nos debruçamos hoje e sobre os quais os governos petistas se voltaram não colocaram na ordem do dia o questionamento das duas questões supracitadas, as comparações se tornam inapropriadas e simplificam por demais as grandes questões nacionais. O momento é totalmente outro, embora seja igualmente um momento de definições em torno da inserção brasileira na economia mundializada. No entanto, o avanço das classes endinheiradas sobre o que resta da Era Vargas suscita algumas discussões em torno do setor de energia elétrica e do papel do Estado, temas do campo progressista que não passam desapercebidas pelas lideranças políticas desse grupo, como Lula. Todavia, não podemos nos iludir: as pautas não são subdesenvolvimento e a dependência externa numa estratégia mais ampla de retomarmos a construção interrompida. A posição do campo progressista em torno de setores da economia que são a base para qualquer projeto de desenvolvimento corresponde antes a proteger esses setores do avanço do campo conservador que à preocupação com o desenvolvimento nacional, com formas de superações dos problemas supracitados. Do contrário, por que muitas das medidas privatizantes empreendidas a torto e a direito pelo governo FHC não foram sequer questionadas no governo Lula e Dilma? E aqui não estamos indo longe e falando em reestatizações, mas em revogações regulatórias, institucionais sobre o capital estrangeiro, a tributação de lucros e dividendos e o monopólio estatal da Petrobrás. Pontos preliminares de um projeto de desenvolvimento e de enorme resistência para uma burguesia dependente e associada, que a cada padrão de acumulação de capital empreende o ajuste na economia brasileira a qualquer custo. O drama do ajuste atual é que, ao contrário dos anteriores, ele não consegue garantir a reprodução material da sociedade nem o crescimento econômico, expediente da atenuação dos conflitos. O rompimento da democracia e o uso da violência não estão fora do horizonte para a garantia da ordem no difícil capitalismo dependente.

A comparação entre Lula e Vargas torna-se insuportável porque boa parte dos interlocutores não se interessam em pensar o período atual à luz dos encaminhamentos das questões nacionais e dos problemas da economia brasileira nesses dois períodos separados por mais de cinquenta anos. As simplificações do momento histórico, se perdoáveis em vista o debate sobre o momento e mesmo ao objetivo de difundir as análises ao público não especializado, não podem se estender às comparações pessoais. Seja pela origem social ou pela forma de barganhar com os detentores do poder político, Vargas e Lula são incomparáveis. De qualquer forma, acreditamos que se elas estão pipocando pelos diversos veículos de mídia grande ou alternativa é porque existe a tentativa de se explorar a distância temporal entre os períodoso e o parco conhecimento do processo histórico por boa parte do público não especializado a favor de um governo que se valeu da posição dependente para empreender o seu projeto e outro cujo projeto se chocava com a condição dependente e subordinada. Por isso, acreditamos que a comparação serve, se não para esconder, para atenuar os limites dos governo do PT diante do combate aos problemas nacionais e do indispensável projeto de desenvolvimento econômico eminentemente nacional.

 

 

 

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