Pitaco da Semana: preso ou livre?

Com um dia de atraso, escrevemos o pitaco da semana que seria publicado no domingo último, 15/07. Certamente, o tema gira em torno de o presidente Lula ter sido libertado e preso em menos de 24 horas, a custas, inclusive, do recesso do guardião moral da classe média brasileira, o juíz Moro. O que chamou a atenção foi, além da excepcionalidade do dia, um domingo, o confronto entre diferentes instâncias do judiciário e a disposição dos juízes em recesso a aparecerem na grande mídia. Novamente, assistimos a um movimento de “mistificação” do processo em que a discussão política deu lugar aos procedimentos legais e à enxurrada de termos técnicos. Assim, mais um movimento em torno do líder das pesquisas passa ao largo do entendimento das pessoas, circunscrevendo a pauta aos rituais burocráticos.

Uma boa recapitulação do processo foi feita pelos jornaistas Conrado Corsalette e Olívia Fraga no NEXO. Como lembra a reportagem, Lula é algo de vários processos e fora condenado em tempo recorde em apenas um, que envolve o tripléx da OAS no Guarujá, litoral de São Paulo. Assim como os tribunais, a defesa de Lula segue o calendário eleitoral e busca, além de defender do presidente das injúrias, mantê-lo solto até a tramitação dos recursos do STJ e no STF, que já se posicionou, no que tange ao mérito da questão, favoravelmente aos apontamentos da defesa (e aqui se revelam os limites deste economista que vos escreve quando se trata de questões burocráticas do judiciário), mas ainda não fez a votação, que depende da ministra Cármem Lúcia, outrora salvadora da pátria em meio aos círculos da classe-média – qual outro juíz ou outra juíza dirigem o seu próprio carro? De todo o modo, Lula foi solto e preso em menos de 24 horas, trazendo grande inquietação para os golpistas e os lulistas. Na CBN, o comentarista Kennedy Alencar é certamente um dos poucos republicanos e lembrou que, segundo o ritual burocrático, o presidente deveria ser solto – mesmo que preso na segunda-feira novamente, com o fim do plantão e a pauta saindo das mãos do desembargador plantonista, Rogério Favreto, que tem histórico de relação com o PT.

Desviando das discussões menores, acreditamos que a estratégia dos deputados que solicitaram o pedido acatado era a de forçar uma situação para desmoralizar em alguma medida o juíz Moro. É de conhecimento geral que um dos pontos levantados pela defesa – e que foi rejeitado recentemente, salvo engano – era a de que o juíz de Curitiba tinha viés contrário ao petista, não sendo totalmente apto a julgar o caso. Por essa razão, forçar uma situação em que o suposto antipetismo do juíz Moro saísse do armário era o objetivo do pedido. Ao cair na armadilha, compromete-se o esforço de muitos em apontar o conteúdo republicano da operação e ao mesmo tempo se fornecem argumentos para os que acreditam na perseguição deliberada da Justiça contra o presidente. Nesse sentido, o caso foi bem sucedido na medida que forneceu subsídio aos petistas que advogam pela perseguição e pela ação deliberdamente não-republicana da Operação lava-Jato.

A repercussão que se seguiu foi evidentemente guiada para as paixões que envolvem as lideranças políticas. Era constrangedor e ao mesmo tempo bizarro o comportamento do time de jornalistas do GloboNews durante os noticários de domingo, em que se imperavam feições muito semelhantes de quando Dilma vencera as eleições em 2014. Importa notar que com exceção de Carta Capital os demais veículos de maior circulação no país trouxeram a discussão para os especialistas, que se debruçaram sobre o ritual burocrático, invarialmente nos lembrando se “em primeiro lugar, a decisão poderia ser tomada por um plantonista”. Seria muita arrogância e prepotência não admitirmos que as pessoas envolvidas neste e noutros casos desconheçam os ritos e os processos que envolvem o trabalho delas, ou seja, que não se sabia com algum grau de certeza (ou convicção, palavra perigosa hoje em dia…) o que se estava fazendo. Por essa razão que acreditamos que na verdade o caso todo teve como objetivo fornecer subsídios aos grupos que buscam enfraquecer a Lava-Jato e que não se perguntam se a Operação tem de fato alguma coisa de republicana ou se de fato está trabalhando para o Tio Sam. Longe de nós subestimar a capacidade de influência do Departamento dos EUA sobre questões latino-americanas. Mas é evidente que nesse caso buscou-se desmoralizar a Operação reforçando o viés “antilulista” que sua caricatura carrega.

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s