Pitaco da semana: a arapuca da burguesia brasileira

O pitaco desta semana se volta para o texto do empresário Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado na FOLHA e que clama por uma “agenda a favor do Brasil”. Com as eleições, aproxima-se um período de certa forma crítico para o processo de ajuste no país, visto que, se tivermos eleições, o vencedor pode de alguma maneira não seguir estritamente a cartilha, ajustando o país com alguma margem de discricionaridade. E aqui é que mora o perigo. Em momentos críticos do ajuste da economia brasileira aos ventos da economia internacional, as classes dominantes não aceitam outra coisa que não o alinhamento estreito e claro com a agenda. O texto do presidente da CNI com os indicativos na coluna do presidente da Siderúrgica Nacional, Benjamin Steinbruch, mostram que a burguesia não está para brincadeira, armando a arapuca para a agenda progressista.

Antes, um passo atrás. Ao que nos parece, a análise de André Singer, em seu novo O lulismo em crise (Companhia das Letras, 2018), faz uma excelente síntese do período Dilma, enquadrando-o no “ensaio desenvolvimentista”. De saída, Singer mostra que o caráter desenvolvimentista relaciona-se, antes, ao conteúdo antiliberal da política econômica adotada, encarnada na Nova Matriz Econômica. Todos esses temas foram trabalhados por nós aqui no Boêmios Cívicos, sempre adotando uma perspectiva mais crítica que a análise em voga. De todo modo, o autor mostra como a burguesia brasileira – ou burguesia industrial, como gosta o Professor – pulou fora do barco quando em 2013 canalizou-se a oposição ao governo Dilma, elegendo o “estatismo” e o intervencionismo como os inimigos número um da Nação. Atacava-se também a outra empreitada do governo Dilma, que era a “faxina” no Estado brasileiro mas, evidentemente, para estancar a sangria, subvertendo a pauta do combate a corrupção da sempre instrumentalizada classe-média, que foi às ruas e fez o trabalho sujo. O resultado: instalou o governo de Temer e do Gato Angorá e Eliseu Padilha. Só a nata. Nesse período, Dilma não consta como ré nos processos e as pedaladas fiscais, razão de seu impechment, deixaram de ser responsabilidade dela.

O que tudo isso nos indica? O prof. Singer foi claro: a coalizão produtivista – Estado, burguesia industrial e trabalhadores – não vai até a página dois, desfazendo-se rapidamente ao primeiro sinal de dificuldades – que, convenhamos, foram muitas. Qual é o recado, portanto? Desde 1964, esse tipo de coalizão não resiste às dificuldades do capitalismo dependente e às desigualdades, que remontam ao período colonial, ou seja, não é párea para encarar o “ornitorrinco” (op. cit., p. 75/6). No ensaio desenvolvimentista, ao que parece, parte do espectro progressista esqueceu-se desta lição da história e novamente apostou na coalizão produtivista. O preço foi alto para a sociedade brasileira.

Os presidentes da CNI e da CSI aparecem no texto de Singer da seguinte forma:

No final de 2013, entretanto, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, falando a empresários norte-americanos em Denver (Colorado, Estados Unidos), afirmou abertamente que o Brasil deveria fechar o acordo de livre-comércio com os Estados Unidos, deixando o Mercosul em segundo plano (op. cit., p. 71).

Em agosto de 2014, Steinbruch, presidente interino da FIESP, o mesmo que dois anos antes saudara a entrada do Brasil na era dos juros civilizados, afirmaca agora que “só um louco investe no Brasil”. Ele também havia migrado para a flexibilização da CLT (op. cit., 61). 

Como podemos observar, as duas das lideranças da coalizão produtivista, quando a maré se voltava contra o governo após junho de 2013, antes entusiastas das práticas do governo firmadas junto aos trabalhadores no documento Brasil do Diálogo, da Produção e do Emprego. Acordo entre trabalhadores e empresários pelo futuro da produção e emprego, como a baixa dos juros e a política de conteúdo nacional, à primeira aparição do ornitorrinco, assustaram-se e abandonaram o barco. É evidente que qualquer governo tem que compor com o empresariado. Mas que finalmente a estratégia se atente à vulnerável base que a “burguesia industria” é capaz de proporcionar para o enfrentamento do ornitorrinco, isto é, do subdesenvolvimento e da dependência externa.

Embora adepto da agenda do teto de gastos, Steinbruch lamentou que o governo liberal tenha também cortado os investimentos públicos, como se na Ponte para o Futuro não estivessem previstas totais aberturas à ação do mercado e ao privilegiamento do equilíbrio fiscal a todo custo – bem à moda dos economistas pré-keynesianos, poupadores exímios e verdadeiros oráculos da “boa doutrina”. No limite, como se o “crescimento” estivesse na ordem do dia e não o equilíbrio fiscal. Orientado pela contração expansionista – a segunda maior falácia dos economistas de planilha* -, o governo ilegítimo terminou de afundar a economia brasileira, à espera (desde 2015) que o crescimento real seja próximo das estimativas (os sabichões torceram o nariz quando projetavam quase 3,0% para este ano e já revisaram a meta à metade; no último World Economic Outlook do FMI, a projeção de 2,3% em abril de 2018 (!!!) caiu para 1,8% – e deve terminar, novamente, por volta de 1,0%), proporcionando aos analistas um verdadeiro “bolão do PIB”**. Andrade, por sua vez, propõe uma “agenda a favor do Brasil” relembrando a reunião nas hostes da CNI em que o pré-candidato saudosista do torturador Brilhante Ulstra foi aplaudido de pé quando o assunto foi a reforma trabalhista.  Depois de dizer que a “indústria brasileira está pronta para oferecer ao país uma via de retomada do crescimento econômico”, o empresário apoia, além da reforma trabalhista e das práticas do livre-comércio, o conjunto do ajuste para que tenhamos o que celebrar em 2022, ano de aniversário da Independência.

As duas posições posicionam a burguesia industrial ao lado das pautas que defendem o crescimento econômico, ou seja, supostamente, das pautas progressistas. Sem comentários sobre a desindustrialização e que o ajuste tem feito o país voltar quase 80 anos em 2, arma-se a arapuca para o campo progressista quando a burguesia industrial acena para o “crescimento”. Se tomdos os ensinamentos da história e o fracasso retumbante do ensaio desenvolvimentista, nos parece evidente que a estratégia para o desenvolvimento não deve depender fundamentalmente desses setores. Nesse sentido, o campo progressista está diante da conciliação vulnerável ao primeiro susto do ornitorrinco ou à demarcação de posição política no debate eleitorial, concentrado forças para os pleitos futuros. Diante da encruzilhada, o que fazer?

 

*a primeira é indiscutivelmente as vantagens ricardianas.

** como mostra a economista Laura Carvalho em sua coluna na FOLHA de 19/07 (ver link acima), os erros têm sido frequentes. Em abril de 2015, a projeção era de 1% de crescimento em 2016 (e a realidade, -3,5%). O Fundo reconhece que subestimou os efeitos dos cortes de gastos sobre a economia real e daí o abismo entre a projeção e a realidade.

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