Cântico

Cântico, de autoria de Eduardo Torres, é um poema sobre como o mundo moderno é capaz de nos estrangular e encurralar. Essas duas noções aparecem nas duas partes em que o poema foi escrito – e, dizem, que uma terceira está “no forno”. Estrangula ao fazer se chocarem todas as “categorias” do mundo moderno, dos trabalhadores à ordem, passando pelo FMI, contra o Amor, e o efeito é de um sufoco da modernidade sobre os sentimentos humanos. Vale lutarmos pelo mundo moderno se ele nos ocupa com todos os seus problemas? O que nos resta, coloca Eduardo, é idealizar. A sugestão de que estaríamos “condenados à modernidade”, que não faz sentido àqueles que só reconhecem e percebem a coroa da moeda, ganha força nestes intensos versos, que buscam resgatar a cara no processo.

Desvencilhar da modernidade eis a questão. Não é tarefa trivial e sujeita à vontade individual. O que a segunda parte nos mostra é que mesmo aceitando sua condenação, fica difícil cantarmos algo. O sufoco aumenta. Frustrada a idealização, aceitamos o concreto para, a despeito dele, tentarmos cantar algo. Este também não parece um caminho possível, tamanha a sanha da condenação moderna. Como não se sentir sufocado?!

Vamos ao texto!

Cântico

Não cantarei a dissolução da ordem vigente
Aos operários em greve
Nem aos trabalhadores do campo
Não cantarei as crianças na Síria
Não cantarei aos curdos

Não farei ode ao bode satânico
no poder do Planalto
Não falarei meus planos de metas
nem de bilhões de chineses
em milhares de anos
Não falarei do Kwait
nem do golfo pérsico

Não cantarei Manhattan
Nem o hip hop do Bronx
Nem Shaolin
Nem Books
Get Down

Não falarei de bombas atômicas
que miram na América e chegam na Rússía
Com suas guerras e paz,
Seus crimes e castigos
Seus demônios reavivados nas guerras
do nacionalismo ao fascismo
Idiota como Cristo e Dom Quixote

Não falarei de Imperialismo
Nem da fase superior do capitalismo
Não cantarei Lenine
Nem o hino da Internacional
Não pedirei intervenções militares
Herzog aos milhares
Mandela na cela
Gandhi com fome

Não pedirei conselhos
Ao conselho permanente da ONU
Não quero OTAN
Nem OTÁRIO
Não quero FIM
Nem FMI pra me salvar
Não cantarei, não cantarei

Não chorarei pelas águas
parcas da cantareira
Nem Cantarei como Salomão
Não direi provérbios
Nem profecias como Elias
Nem ditos eclesiásticos
Cantarei o Amor!
O peso que segura o Mundo
O Amor.

(2a Parte)

Queria cantar o amor
Mas há crianças gemendo na Síria
Atacadas por bombas químicas
Queria cantar o amor
Mas há velhos se matando
com as “reformas” na Grécia

Queria cantar o amor
Mas estão roubando o pouco que os pobres tem
Queria cantar o Amor
Eu juro que queria
Mas há policiais em São Paulo
que tomam cobertores e colchões
De moradores de rua

Queria cantar o amor
Mas há jovens que morrem tentando abortar
Queria cantar o amor
Mas estão deflagrando uma 3ª Guerra Mundial
Queria cantar o amor …

Cantar o amor contra o utilitarismo da vida Moderna
Abraçar o amor contra a frieza do neoliberalismo
Amar em escala
Ser produtivo no amor
Amar na margem
A cada novo amor, amar mais
Acabar com o mundo de tanto amor
e construir um novo mundo
Um mundo de amor.

 

(Eduardo Torres)